Reportagem

Da aldeia Brasil para o mundo: uma festa para emocionar o planeta

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Há um segredo guardado com absoluta segurança no prédio da Rua Ulisses Guimarães, 2016, na Cidade Nova, região central do Rio de Janeiro. Na sede do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio-2016, pouquíssimos funcionários são capazes de penetrar as camadas de mistério colocadas sobre um dos momentos mais marcantes do evento olímpico. Tudo para não estragar a grande surpresa, que será finalmente revelada na noite de 5 de agosto, no estádio do Maracanã, quando a cerimônia de abertura da Olimpíada descortinará aos olhos do mundo o espetáculo concebido pelo trio formado pelos cineastas Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Daniela Thomas, com participação luxuosa de Deborah Colker como coreógrafa.

Ainda assim – e apesar de todo o silêncio que cerca o assunto –, ouve-se um sussurro aqui, uma confidência ali. Ao ir juntando os pontinhos, uma frase do escritor russo Leon Tolstói vem à mente: “Se queres ser universal, começa por pintar sua aldeia”. A cerimônia vai falar do Brasil e dos brasileiros, mas também deve emocionar as 3 bilhões de pessoas que, estima-se, assistirão ao espetáculo nos cinco continentes. Em um mundo globalizado, com guerras e terrorismo que lançam imigrantes por toda a parte e onde o racismo e a xenofobia saem das sombras, a contribuição multicultural e multiétnica para a formação do povo brasileiro desponta como tema.  Não confirmado, é verdade. Mas já antevisto. As origens indígenas do País e a chegada de portugueses e outros europeus, escravos africanos e asiáticos estarão representadas, mostrando que é desse caldo que o Brasil é feito.

“O único jeito de emocionar o mundo é emocionando o brasileiro. E o único jeito de emocionar o brasileiro é sendo autêntico de verdade. O desafio é contextualizar, porque o estereótipo só se mostra quando não há contexto”, diz o diretor de cerimônias do Comitê Rio-2016, Leonardo Caetano, sem entrar em detalhes e sem negar ou confirmar qualquer informação sobre a temática. Mas ele libera pequenas pistas que confirmam a ideia. A cerimônia mostrará a história do Brasil, mas não será um espetáculo cronológico. Será, na verdade, a história das pessoas quem formam o País. “A gente vai ter uma pegada contemporânea, urbana, com gente de todas as tribos”, diz Caetano. “Vamos brincar com a antropofagia, a capacidade de misturar duas coisas e criar uma terceira a partir disso.”

Imigração, miscigenação, formação nacional. Tudo com música e dança representativas das diversas manifestações étnicas e culturais do País. Em cena, haverá skatistas, acrobatas, dançarinos profissionais e, mais do que tudo, gente como a gente – pessoas comuns, sem talentos especiais. Não serão os mais fortes, os mais rápidos, os que pulam mais alto ou mais longe, muito menos os mais flexíveis ou ágeis, nem os melhores dançarinos. No penúltimo dia de audição para os voluntários, havia gente dos 16 aos 75 anos, com histórias e habilidades diversas.

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“Participei do Pan de 2007 como voluntária, na parte de nutrição. Não queria ficar de fora de novo. Não mexo em computador, mas fiquei atenta à TV. Quando soube da audição para voluntários nas cerimônias, logo me candidatei”, diz a técnica de enfermagem aposentada Doralice de Oliveira Ferreira, 75 anos, que ainda não tem ideia de sua função. Ao lado, os primos Rafael e César Paulo Guimarães, respectivamente com 16 e 18 anos, contavam que nunca haviam visto uma cerimônia de abertura ou encerramento de Jogos Olímpicos na vida, nem pela TV, quando souberam das audições. Os garotos, estudantes do Ensino Médio e moradores de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, são bem mais afeitos à tecnologia do que Doralice. Correram para o computador e assistiram a cerimônias de Olimpíadas passadas no YouTube. “Primeiro nossos parentes acharam que era bobagem nossa, mas agora viram que a gente quer mesmo isso”, diz Rafael, que, como o primo, frequenta bailes de charme e gosta de hip hop.

O tradicional baile de charme no Viaduto de Madureira, por sinal, foi um dos lugares escolhidos para as audições, assim como a quadra da Mangueira e a Feira de São Cristóvão. Os ritmos do Brasil, presentes no samba, no forró e na black music, além de tantos outros que têm sido pinçados Rio de Janeiro afora, ajudarão a contar a história de um povo feito de tantos povos. “A ideia é mostrar a diversidade brasileira por meio da dança e da música”, afirma Diana De Rose, coordenadora de elenco dos Jogos.

De novo uma palavra que remete ao nosso caldeirão étnico: diversidade. Para representá-la, haverá quase 6 mil voluntários e mais de cem artistas profissionais, entre dançarinos e acrobatas, em ação. O espetáculo vai acontecer não só no chão. “O show tem que se dar em mais de um nível, é para encantar o público presente e o telespectador, no mundo todo. O Maracanã tem que ser uma arena, mas também um palco para a TV”, diz Leonardo Caetano, confirmando que o estádio receberá um sistema aéreo de cabos que movem elementos cenográficos e podem até suportar uma coreografia.

As atrações musicais estão sendo mantidas em sigilo, mas especula-se que Caetano Veloso será uma delas. Caberia a ele cantar o Hino Nacional. Mas, para além do show, há momentos protocolares obrigatórios, como acendimento da pira – função para a qual até o Rei do Futebol, Pelé, já se ofereceu –, hasteamento da bandeira, libertação da pomba branca, discursos e o longo desfile de mais de 10 mil atletas. A largura dos túneis do Maracanã, menor do que o ideal, pode ser considerada um entrave nessa hora, fazendo que os o desfile seja mais longo. “Não é bem assim”, diz Leonardo Caetano. “Se tivermos uma surpresa acontecendo ao mesmo tempo do desfile, no estádio, ninguém nem vai sentir o tempo passar”. Algo como o que já foi revelado durante o desfile dos atletas paralímpicos (confira o box).

Nem o orçamento, apertado em comparação aos Jogos de Londres-2012 e Pequim-2008, está sendo tratado como empecilho. Os valores, assim como quase tudo o que cerca o evento, não são confirmados, mas fala-se em um terço dos estimados R$ 127 milhões gastos em Londres. “Eu gosto. Prefiro ter menos dinheiro e mais criatividade, cultura. Temos um know-how que não vamos desprezar”, afirma Caetano. “Não faremos um Carnaval, mas usaremos muito dos artifícios que aprendemos no Carnaval, na festa do boi de Parintins e em tantas manifestações brasileiras.” O diretor promete um momento para ficar na memória de gerações, como foram a despedida do Ursinho Misha em Moscou-1980 e a aventura da Rainha Elizabeth, da Inglaterra, com o agente 007 em Londres -2012. Um show da aldeia Brasil para o mundo.

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As outras três cerimônias

Enquanto os atletas paralímpicos estiverem desfilando aos olhos do mundo, no dia 7 de setembro, outro espetáculo acontecerá no centro do Maracanã. O artista plástico Vik Muniz tem a missão de encantar cada espectador, dentro do estádio ou pela TV, ao criar uma grande obra de arte em tempo real. Conhecido por produzir peças em grande escala e usar materiais inusitados, como lixo, brinquedos, restos de demolição, açúcar e chocolate, Vik Muniz é um dos diretores da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos, ao lado do escritor Marcelo Rubens Paiva e do designer Fred Gelli.  

São necessários no mínimo 12 mil voluntários para as quatro cerimônias: as duas de abertura e as duas de encerramento – quase a metade deles para a abertura olímpica. Muitas das audições foram feitas no Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e no Instituto Benjamin Constant, para deficientes visuais, garantindo que a diversidade não seja privilégio das cerimônias paralímpicas. Poderá haver voluntários cegos, surdos ou cadeirantes em todas elas.

Na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos, dia 21 de agosto, dirigida pela carnavalesca Rosa Magalhães, as baianas da Mangueira terão espaço garantido. Na de encerramento Paralímpico, dia 18 de setembro, ainda sem diretor definido, o clima será de uma grande
festa de despedida, com alegria e música. 

“Precisávamos de 12 mil voluntários, já temos 14 mil inscritos. E os coreógrafos gringos ficam loucos, dizem: ‘Nunca vi isso, no Brasil todo mundo sabe dançar’”, afirma o diretor Leonardo Caetano. Acima de todos os coreógrafos e diretores de cerimônia estão o supervisor criativo Abel Gomes, dono da agência Cerimônias Cariocas e responsável pelo Réveillon de Copacabana e pela Árvore da Lagoa, e o produtor executivo italiano Marco Ballit, que esteve à frente de cerimônias de abertura e encerramento nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim-2006 e Sochi-2014.

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